
Não consegui dormir esta noite – nem a noite passada e a retrasada e a re-retrasada – e tantas outras noites onde vi a Lua em Virgem. Peguei-me pensando por diversas vezes em astrologia, na minha deficiência desde sempre em matemática e no eu - lírico tão eu. Eu pensei ferozmente em mim. Nos tantos e tantos nomes próprios que carrego sobre uma única face amassada e cansada de uma monotonia vital. Tão inútil. Pensei na minha inutilidade comigo mesma. Esqueci meu jornal em cima da mesa já faz dois dias e meio. Chove incontrolavelmente há mais de três horas e meia. Meu relógio está atrasado meia hora. E minhas meias soquetes não esquentam meus pés frios. Não me resta nada a não ser pensar. E os inúteis com tamanha inutilidade também tem a capacidade de pensar. E também merecem o seu respeito e o seu amor e a sua atenção e qualquer coisa do tipo que tenha alguém ao lado. Os inúteis também caminham. Falo isto, porque me ponho a caminhar em todos os dias de sol.
Mas no momento à água cai e da janela do meu quarto no décimo quarto andar vendo as gostas da chuva contra o vidro embaçado, compreendi que a gente não desama não deixa de pensar nem deixa de sentir falta. Vi – sentindo – que o amor sempre está dentro de um buraco – talvez negro – em alguma parte de nosso corpo. E quando alguém cutuca esse buraco, vão saindo alguns resquícios de luzes – falo justamente daquilo que não se desama, não se deixa de pensar e nem de sentir falta –. E percebemos que só fizemos enganar a todos – e principalmente a nós mesmo – durante todo esse tempo em que o buraco permaneceu fechado. Como nós. Como nossa janela em dias de chuva. Em dias tão frios quanto nossos pés, que mesmo com meias soquetes continuam gelados.
Caminhar pela casa o dia inteiro sem nada para fazer nada para descobrir ninguém para encher o saco, pode torna-se exaustivo. E eu estou bem exausta. Os inúteis também cansam da inutilidade. Quero programar a minha vida em suspiros. Perdi tantos segundos achando que tinha uma dimensão de dias para ser feliz, que juntando esses milésimos de hora perdi metade da minha vida. Agora só faltam cinco minutos para o novo paradigma. Suspirei. Talvez amanhã ligue para meu médico – ele precisa aumentar a dose do rivotril, a minha necessidade de dormir já é questão de bem estar da minha saúde – já que passa das 21h47min acredito que seria incomodo ligar para ele esta hora. Com o frio que está fazendo nesta noite de chuva, uma trepada seria legal. E talvez ele esteja fazendo algo legal – como trepando – ou bem ocupado para ouvir novamente meu desgosto sobre dias de chuva. Ah como tenho vontade nessas noites melancólicas de outono de ir para bem longe, sem deixar migalhas de pão pelo caminho, romper qualquer tipo de laço ou fita. Ir para uma quitinete na Suécia sem endereço. Fugir de mim para me encontrar, algo do tipo.
Tomei mais uma xícara de café – tenho tomado muita cafeína nestes últimos dias, talvez esse seja mais um dos motivos para eu nunca ter sono, costumo acreditar em mitos e até onde eu sei, o café espanta os sonhos e pesadelos – e tenho medo de meus dentes ficarem amarelados por isso, ainda bem que parei de fumar, senão o estrago estava feito. Mas bem que eu gostaria de fumar um maço agora, pelo menos eu teria algo nas mãos e algo para fazer. Olho para o relógio digital que comprei há pouco tempo sob a minha cabeceira, os minutos passam tão devagar que tenho pena dos gatos que possuem sete vidas, eu vivo uma e ela já é tão estranha. Pelo menos o sete é o número da perfeição. Não que eu compreenda muito – ou nada – de numerologia, acho até uma ciência interessante, mas já li algumas coisas sobre este número (que é o meu preferido).
Mais uma hora chovendo e minha ânsia de uma busca interior aumenta. Aquele caminho in me parece tão cheio de curvas – não que eu tenha medo ou preguiça ou qualquer outra coisa de encontrar o final – a questão é a fé mesmo. Ando com tão pouca fé (e não é fé em Deus que estou falando, mesmo eu tendo deixado de freqüentar a igreja todos os domingos pela manhã, continuo rezando todas as noites antes de dormir, e Ele bem que tenta me dá umas levantadas de ânimos, uns conselhos até pensáveis, Deus chega a ser um cara legal) é uma fé em mim. Levei tanto na cara que deixei de acreditar nas pessoas e suas boas intenções e as noites de chuva que eu tanto apreciava me parecem tão destruidora da fé – que eu não tenho.
Se amanhã houver sol vou batalhar por minha busca. Eu tenho que acreditar nisso, senão nada dará certo. Vou colocar um ‘Eu amo Você’ em todos os espelhos da casa, para cada vez que me olhar dá um certo incentivo de querer viver melhor por mim. Um dia ainda vou gostar de ver a chuva cair nas noites frias de outono, e não vou me importar se não terá ninguém ao meu lado, porque eu terei bastante fé para acreditar que está tudo bem e que eu não estou perdida e que a minha felicidade só depende de mim mesma. E eu vou está bastante feliz. Vou continuar arrastando minhas meias soquetes pela casa inteira – feito um vulto – tomando minha xícara de café bem quente e buscando fé. Eu tenho o direito à felicidade. Até os inúteis tem o seu valor.
Vanessa R.
sábado, 8 de maio de 2010
Alguns minutos e uma xícara de café
Postado por Vanessa Rodrigues às 08:51
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