segunda-feira, 24 de maio de 2010

[...] Estação



As minhas feições melancólicas deixavam toda a praça central da Nova Zelândia com pena de mim. As luzes escassas permitiam ao cenário uma tristeza indescritível. Eu não me importava. Crianças incansavelmente esculpiam um boneco de neve, enquanto suas mães desviavam os olhares minuciosos para um cara de vestes impróprias, para menos de sete graus que fazia, sentado em um banco do outro lado, com uma maçã entre suas mãos. Ele cantarolava baixinho. E este homem sou eu. Nunca fui íntimo do inverno, é uma estação de más lembranças. Deveríamos está dentro de um chalé com o aquecedor ligado e uma música ao fundo, Taylor Swift seria legal, não quão fazer sexo ouvindo Celebration de Madonna, mas não deixava de ser interessante. Ela usaria um vestido curto vermelho de um decote excitante, onde prenderia minha atenção nos primeiros segundos em que ela entrasse pela porta, e a roupa seria tão colada que na hora em que eu fosse tirá-la pensaria que ela pôs Super Bond, para que eu não ousasse tocá-la. Tolice. Salto alto, cabelos desfeitos e um sorriso perfeito. Uma taça de vinho do porto, legítima de Portugal, ajudaria a esquentar à noite, acompanhada de uma fondue de queijo ou de chocolate, a sua preferência. E quando chega pelo fim da garrafa, tento ser um cavalheiro chamando a donzela para dançar. Tiramos nossos sapatos e começamos a girar. Ela pisa no meu pé, eu sorrio. Fica ruborizada por está tonta e deixa-se conduzir. Nossos corpos juntos dançando em círculo chegam até a sala de estar, roda, roda, roda. Eu paro e a admiro, ela continua a rodar sem sair de onde estava, até debruçar sobre mim, cairmos sobre o tapete ao lado de uma lareira e de tanto rir, adormecermos abraçados um com o outro. Mas aqui estou sentando em uma praça central, vendo as mães indo embora com seus filhos super agasalhados, talvez a temperatura tenha caído mais um pouco. Novamente percebo que uma ou outra das mulheres olham para aquele homem triste e sozinho, cantando baixo alguma música de amor para sua amada, que no momento também escuta a mesma música de amor, Love Story, com a luz baixa e choramingando, e escrevendo em seu diário, “ It’s a love story, baby, just say yes ", um trecho da canção. Agora resta-me apenas esta maçã entre as minhas mãos, tão vermelha quanto a cor de sua boca e a suposta cor do seu vestido. Vou-me indo para não ser confundido com um boneco de neve ou um vagabundo desesperado chorando por sua dama.

0 comentários: